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A FILOSOFIA DO MESTRE YODA EM 8 FRASES

YODA

 

O que as ideias do Mestre Yoda têm a nos ensinar? "Muito", diriam os filósofos. É partindo dessa premissa que o artigo destaca 8 frases ditas por um dos personagens mais queridos do universo Star Wars e as analisa sob uma visão filosófica, comparando-as com os pensamentos de grandes filósofos, como Séneca, Sun Tzu, Platão e Nietzsche.     

 

Talvez ele seja um dos ícones mais famosos da cultura pop. Personagem carismático desde a década de 1980, Mestre Yoda (criado por George Lucas) apareceu em todos os filmes da franquia Star Wars, com exceção do primeiro filme da trilogia clássica, lançado 1977. Sua primeira aparição nas telonas foi no filmeStar Wars: O Império Contra-Ataca, de 1980.

Este pequeno Mestre Jedi, de apenas 75 centímetros de altura, liderou o Conselho Jedi durante anos. O nome de sua raça nunca foi relevado na trama de Star Wars. Mestre Yoda foi um dos membros mais importantes do alto Conselho Jedi, vindo a falecer aos 900 anos de idade.

Além de ser um exímio lutador, que combinava apurada habilidade de combate com o uso do sabre de luz (arma da Ordem dos Jedi e dos guerreiros Sith) com técnicas acrobáticas de luta, foi também um grande pensador no universo criado por George Lucas, criador de toda a saga Star Wars.

A seguir apresentaremos algumas falas do personagem que refletem sua filosofia de vida. São pensamentos interessantes que, com toda certeza, lhe farão refletir sobre sua vida, seus relacionamentos e sobre a sociedade em que vive.

(1) "May the Force be with you" (Que a Força esteja com você)

Frase emblemática que marcou o universo Star Wars. Essa "força" pode ser entendida muito mais como persistência e firmeza de caráter do que uma força física. Podemos constatar na própria trama da saga que a força de vontade foi aliada dos guerreiros Jedi em diversas situações de perigo.

Este ensinamento ultrapassa o contexto dos guerreiros Jedi. Essa força pode ser encontrada dentro de cada um de nós à medida que conhecemos a nós mesmos. O aforismo grego "conhece-te a ti mesmo" (atribuído por Platão a Sócrates) pode ser invocado neste pensamento como uma ideia de motivar o interlocutor a realizar uma busca pessoal e interior.

De fato, quando conhecemos a nós mesmos, nossos limites e potencialidades, somos capazes de feitos extraordinários. No livro A Arte da Guerra, um verdadeiro tratado de estratégia militar escrito durante o século IV a.C. por Sun Tzu, encontramos a seguinte lição:

"Aquele que conhece o inimigo e a si mesmo lutará cem batalhas sem perigo de derrota. Para aquele que não conhece o inimigo, mas conhece a si mesmo, as chances para a vitória ou para a derrota serão iguais. Aquele que não conhece nem o inimigo e nem a si próprio, será derrotado em todas as batalhas".

(2) "Always pass on what you have learned" (Sempre passar o que você aprendeu)

A ideia de formar discípulos e compartilhar o conhecimento foi muito difundida por filósofos como Platão e Aristóteles, que criaram escolas com o intuito de propagar seus ensinamentos.

Academia Platônica  foi fundada por volta de 384 em Estagira, no subúrbio de Atenas, tendo se originado, provavelmente, quando Platão herdou a propriedade aos trinta anos de idade. Já a escola de Aristóteles, a Escola Peripatética, fundada em 336 a.C no Liceu em Atenas, também na Grécia Antiga, foi um círculo filosófico que seguia os ensinamentos de seu fundador.

Peripatético significa itinerante (ou ambulante) e os peripatéticos (aqueles que passeiam) eram os discípulos de Aristóteles que caminhavam durante os ensinamentos de seu mestre, que tinha o hábito de ensinar ao ar livre. O filósofo passeava enquanto lia sob os portais do Liceu, conhecido como perípatoi.

Essa preocupação em propagar o saber foi o responsável por conhecermos os pensamentos dos filósofos do passado e representou um marco divisório da cultura humana, pois desde as pinturas rupestres da pré-História até as modernas formas de processamento de dados, percebe-se a ideia de disseminar o conhecimento adquirido por meio de experiências ou de novas maneiras de pensar e enxergar o mundo ao nosso redor.

(3) "In a dark place we find ourselves and a little more knowledge lights our way" (Em um lugar escuro nos encontramos e um pouco mais de conhecimento ilumina nosso caminho)

Mesmo "vivendo" em um universo distante do nosso, fica evidente a influência da filosofia platônica nos ensinamentos do Mestre Yoda. O Mito da Caverna, de Platão, é uma das passagens mais famosas da história da Filosofia. Faz parte do Livro VI de A República. Nesta obra, o filósofo discute temas como teoria do conhecimento, linguagem e educação na constituição do Estado ideal.

Com uma narrativa alegórica e, ao mesmo tempo, dramática, Platão conta-nos a história de prisioneiros que, desde o nascimento, encontram-se acorrentados no interior de uma caverna. A caverna possui uma pequena entrada, por onde passa pouca luz, vinda de uma fogueira. Esses prisioneiros olham somente para uma parede iluminada por essa fogueira. Do outro lado da caverna se encontram pessoas que manipulam estatuetas de homens, plantas e animais.

Como os prisioneiros não tem a mesma percepção de quem está do outro lado da caverna, imaginam que as sombras projetadas na parede são, de fato, as coisas em si. Assim, as sombras dos animais, para os prisioneiros, são os animais. Com o tempo, os prisioneiros passam a dar nomes a essa projeções pensando se tratar da realidade.

O texto do Mito da Caverna é um diálogo entre Sócrates e Glauco:

"Agora imagine a nossa natureza, segundo o grau de educação que ela recebeu ou não, de acordo com o quadro que vou fazer. Imagine, pois, homens que vivem em uma morada subterrânea em forma de caverna. A entrada se abre para a luz em toda a largura da fachada. Os homens estão no interior desde a infância, acorrentados pelas pernas e pelo pescoço, de modo que não podem mudar de lugar nem voltar a cabeça para ver algo que não esteja diante deles. A luz lhes vem de um fogo que queima por trás deles, ao longe, no alto. Entre os prisioneiros e o fogo, há um caminho que sobe. Imagine que esse caminho é cortado por um pequeno muro, semelhante ao tapume que os exibidores de marionetes dispõem entre eles e o público, acima do qual manobram as marionetes e apresentam o espetáculo".

No decorrer da narrativa, um dos prisioneiros consegue se libertar das correntes e contempla o mundo exterior, mas ao voltar ao interior da caverna e relatar suas experiências e seu novo modo de perceber as coisas é contrariado por seus companheiros, que, provavelmente, o mataram por ir de encontro às ideias já estabelecidas pelos habitantes da caverna.

Como conclusão, o personagem Sócrates diz:

"E agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar exatamente essa alegoria ao que dissemos anteriormente. Devemos assimilar o mundo que apreendemos pela vista à estada na prisão, a luz do fogo que ilumina a caverna à ação do sol. Quanto à subida e à contemplação do que há no alto, considera que se trata da ascensão da alma até o lugar inteligível, e não te enganarás sobre minha esperança, já que desejas conhecê-la".

(4) "Powerful you have become, the dark side I sense in you" (Poderoso você se tornou, o lado escuro sinto em você)

Para o mestre Yoda, o poder nos leva para "o lado escuro", nos corrompendo. Mas esta não é uma ideia nova. Para o historiador inglês John Emerich Edward Dalberg-Acton (1834-1902), primeiro barão Acton de Aldenham, ativo militante da causa da liberdade, "o poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente, de modo que os grandes homens são quase sempre homens maus".

A frase atribuída a Abraham Lincoln, "se quiser pôr a prova o caráter de um homem, dê-lhe poder", também se aplica neste contexto. Parece que os ideais de liberdade e igualdade só são atingidos por meio de lutas e revoluções. Quando a totalidade do poder se concentra na mão de apenas um governante soberano, todo o povo padece.

Já segundo Ulysses Guimarães (1916 - 1992), "o poder não corrompe o homem; é o homem que corrompe o poder. O homem é o grande poluidor, da natureza, do próprio homem, do poder. Se o poder fosse corruptor, seria maldito e proscrito, o que acarretaria a anarquia".

O que se nota é que, no decorrer da história da humanidade, o pensamento ético é inclinado de acordo com a vontade do governante ou do grupo de pessoas que governam. Nesse sentido, a ética é variável de acordo com o poder vigente na sociedade.

(5) "Many of the truths that we cling to depend on our point of view" (Muitas das verdades que temos dependem de nosso ponto de vista)

Para o filósofo Immanuel Kant (1724 - 1804), a realidade não é aquilo que realmente é, mas ela é como nós a enxergamos, como se usássemos lentes que alteram a realidade de acordo com nossas percepções.

No entanto, como conceito relativista, a verdade é sempre a verdade sob um ponto de vista. Segundo o pensamento do Mestre Yoda, nossas verdades dependem de como nós a vemos.

O problema dessa concepção relativista, que encara a realidade como algo não absoluto, é que (em uma visão extremista desta premissa) nunca saberemos qual é, de fato, a verdadeira realidade. Nesse sentido a realidade está vulnerável à interpretação de cada indivíduo.

(6) "Fear is the path to the dark side. Fear leads to anger, anger leads to hate, hate leads to suffering" (O medo é o caminho para o lado negro. O medo leva a raiva, a raiva leva ao ódio, o ódio leva ao sofrimento)

Para o filósofo Séneca (4 a.C. - 65), "uma ira desmedida acaba em loucura; por isso, evita a ira, para conservares não apenas o domínio de ti mesmo, mas também a tua própria saúde".

A filosofia de Séneca nos ensina a ter moderação e aceitar que não temos o controle de tudo que acontece e que aceitar este fato e tentar mudar as coisas que podemos mudar é essencial para termos tranquilidade. Quanto mais cedo entendermos isso, mais cedo alcançaremos a ataraxia (tranquilidade da alma), segundo Séneca.

Ainda segundo o filósofo "a maldade bebe a maior parte do veneno que produz".

(7) "Size matters not. Look at me.Judge me by my size, do you?"(Tamanho importa não. Olhe para mim. Você julga a mim pelo tamanho?) 

Novamente vemos aqui a influência do Mito da Caverna, de Platão, pois quando julgamos pela aparência, julgamos mal por não levarmos em consideração a realidade das coisas.

Para Nietzsche (1844 - 1900), a realidade é a aparência e a essência é uma mentira, espécie de ilusão criada pelos homens, uma vez que é difícil encarar a constante multiplicidade e efemeridade do que é real.

Ainda que a fragilidade e a constante mudança da realidade nos atinja, o ensinamento do Mestre Yoda nos diz que devemos lançar mão de acreditar no que nossos olhos enxergam e procurarmos enxergar a essência das pessoas.

(8) "Wars not make one great"(Guerras não faz grande ninguém)

Na obra A Arte da Guerra, Sun Tzu declara que "o verdadeiro objetivo da guerra é a paz". Ainda segundo o estrategista militar, "os guerreiros vitoriosos vencem antes de ir à guerra, ao passo que os derrotados vão à guerra e só então procuram a vitória". Nesse sentido, o embate físico deve ser a última fase de uma guerra e não o primeiro.

Assim, através dessas oito frases concluímos singelamente nossa análise do pensamento filosófico do Mestra Yoda, um dos personagens mais queridos do universo Star Wars. Escolhemos apenas oito frases para deixar o texto mais objetivo, porém, obviamente, diversos outros pensamentos possuem igual utilidade e podem ser adicionados a estes que relacionamos.

Para os fãs da série, essa foi nossa modesta homenagem a este incrível personagem de George Lucas. Para aqueles que não conhecem a série, esta é uma boa oportunidade para pesquisar sobre o assunto.

Esperamos ter aguçado sua curiosidade sobre o tema e…

 

Que a força esteja com vocês!

 

Veja também "

Quando é hora de mudar->http://bit.ly/1UJgdYU

 

 

Fonte: @obvious on Twitter | obviousmagazine on Facebook

Autor: RENATO COLLYER                           

 

 

 

Ubaldo e a Hipótese

Colunas de Hercules

 

O Ubaldo, que via longe, me perguntou:

- Estou tão cansado de tanta cegueira, quero deixar de ser hipótese! Ouvi dizer que quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Será verdade?

Retruquei:

- Fazer é agir. Agora - é ação sem tempo e lugar, sem pensamento, sem julgamento - eis ai a Magia! Todo ato ou é sagrado ou é "maladicionado", mas nunca passa despercebido pela natureza, qualquer que seja a sua dimensão. Se você pensa, você está "causando" para você, se você esta agindo você esta causando para o Mundo tendo você como protagonista, mas em ambos os casos você está intimamente ligado aos efeitos, embora frequentemente culpe os outros pelos insucessos e levante templos ao seu Ego pelos sucessos.

O Ubaldo, que via longe, me questionou:

- Mas isto também não deixa de ser hipótese! Como posso saber se é verdade?

Retruquei:

- Mas se você não agir como poderá sentir dor, como pode materializar o Amor?! Como posso saber se é verdade senão por sentir a realidade dos sentimentos?

Veja que não é o Arco que lança a Flecha, mas o contrário, a Flecha é que se liberta do Arco para atingir o seu Amor, que é o seu destino final. A natureza é de certo modo um orgasmo e todos nós vivemos estas Divinas Comédias cotidianas. Nós é que as transformamos em tragédias, que não são atributos divinos e talvez por isso as Putas descritas pelo Gabriel nos deixaram suas memorias tristes. Não há graça na Poesia que não tem um Canto ou uma Ode, nela inserida. Uma poesia sempre tem um ato heroico, seja de maneira subliminar ou não. Senão pode ser um tratado, uma metodologia.

O Ubaldo, que via longe, me questionou:

- Mas o que você me diz do Cubo. Por acaso não é humano? Não existe esta forma perfeita na Natureza. Será então a pedra cubica uma obra não humana?

Diante de tão deslumbrante afirmação parei e comecei a refletir sobre a forma perfeita, afinal o que nos deu este conceito estético da perfeição, pois tal qual a Beleza, são assim sob o ponto de vista subjetivo, portanto humano. Por mais que reflito não me livro da praga Antropomórfica. Como Midas, tudo que toco se transforma. Talvez porque o pensamento para tudo dê forma.

É isso!

Comecei preparar a resposta. Assim, para criar um ambiente ou uma ideia que poderia concretizar tudo, imaginei criar uma figura de linguagem, todavia pensei:

Será que para o Ubaldo tudo não é um anacoluto intransponível?

Decidi apelar para uma criatura humana e ao mesmo tempo divina, afinal existem tantas na mitologia. Posso quase afirmar que para o Ubaldo, em seu mundo nunca poderia existir Oxóssi.   Arrisco até dizer que para Ubaldo não existia o verdadeiro Mar, pois seu simbolismo é o Infinito. Pensei em falar com todas as letras para o Ubaldo que Oxóssi sempre será eterno, pois vive o Presente e de certo modo é como se fosse filho do Mar com a Terra.

Mas isto não é resposta diante do Cubo. O Cubo é uma forma, se humana ou não já não vem mais ao caso.  Que adianta perguntar sobre a origem da Forma e a sua contrapartida - a Força. Será porventura que Jaquim e Boaz lhe são conhecidas?

Pela sua ótica - dizendo que o Cubo é perfeito porque tem todos os lados iguais e retos - como poderei criar Esferas? A partir dos Cubos criamos outros cubos ou qualquer outra forma quadrada e assim passamos a viver nos cubículos de nossas fantasias, fingindo que sabemos o que é Liberdade.

Será que valeria a pena pedir para o Ubaldo imaginar que o Cubo tem 6 lados e se ele estiver dentro de um poderá aferir que existe mais 6 dimensões além daquela em que ele vive?

Senão poder criar Esferas como então poderei migrar para o Alto já que dizem que o Absoluto somente existe em esferas superiores?

Novamente me vejo no inferno metafórico a partir da praga Antropomórfica.

Cai em um silêncio absoluto e um tempo quase eterno encobriu os Céus com seus mantos.

Adormeci e foram-se quatrocentos e vinte vezes estações, cada uma com seu Talento. 

Quando acordei, em um estalo afirmei:

- Ubaldo, seja como Ulisses!

Explore o mundo que nunca ninguém tenha visto!

Vá além das Colunas de Hércules!

 

Afinal você já está condenado à dualidade desde que nasceu.

 

Ajuda para Ubaldo

 Ubaldo

                                               

                                                     

 

Preciso de sua ajuda para descobrir onde foi parar a família do Ubaldo. Bem, talvez você não saiba, mas reencontrei o Ubaldo faz pouco tempo, e ele perdeu completamente a memória, digo, talvez completamente não, mas não sabe mais quase nada de seu passado, inclusive nem lembra mais como se chama.

 

Disse para ele que se chamava Ubaldo, mas ele não levou muito o sério minha afirmação, pois pensou que somente o fiz para agradá-lo. Como se chamar alguém de Ubaldo fosse um Presente.

 

Lembro-me ainda, quando estudávamos na mesma escola, e chegávamos até a trocar conversas ditas fiadas, sim porque o Ubaldo não era muito disso, já que ele se preparava seriamente para ser o Administrador.

 

Não se podia saber muito sobre a vida dele, pois disso pouco se falava, mas se sabia que era de uma família de construtores que talvez viesse de Portugal ou de Espanha ou até mesmo do Egito, não sei bem ao certo. Presumo que seja de Espanha, mais precisamente da Galícia, pois sabiam como poucos trabalhar com as pedras e com elas faziam os alicerces de suas casas, dado que naquele lugar as pedras eram abundantes. Para eles, alicerçar uma construção significava escolher as pedras certas, polir suas arestas e ajustá-las de maneira firme que quando colocadas juntas se tornavam tão coesas e solidas que pareciam já estar lá por todo do tempo.

 

As vezes, por força de nosso estudo em conjunto, tínhamos que trocar algumas mensagens eletrônicas e o Ubaldo, prezando os laços familiares, sempre começava seus textos da mesma maneira:

 

"Espero que você e sua família estejam bem de saúde, graças a Deus. Eu e a minha família estamos bem de saúde, graças a Deus."

 

Quando lia isso, ficava a pensar se ele imaginava que todos que não eram de sua família viviam doentes, ou talvez do contrário, eles tinham vivido um longo período de doença e agora estavam bem de saúde. Muito bom para a gente nunca se esquecer que vivemos devido ao Shekinah eterno, graças a Deus.

 

Um dia o Ubaldo me confessou que se preparava para ser o melhor Administrador que a sua família de construtores poderia ter, por isso estudava tudo que parecia pela frente e tinha uma visão muito idealizada da Administração. Achava que com ela tudo poderia fazer, pois este é o destino de todos que idolatram ideologias.

 

Confesso que achei aquela visão tão fora da realidade que secretamente passei a chamá-lo de Ubaldo Utópico. Contudo, explorando um pouco mais a sua realidade, indaguei sobre que tipo de construção eles eram especializados. Ubaldo me disse que construíam Castelos, daí achei que a sua utopia era plenamente justificável, pois quem constrói Castelos deve ter uma clientela muito seleta e cheia de virtudes idealizadas e auto pressupostas, para as quais dinheiro é imprescindível. Talvez o dito Ubaldo Utópico não seja tão utópico assim, pode ser perfeccionista, mas disso também não posso ter certeza, já que ele não é engenheiro. Diga-se, uma exceção em sua família, pois descobri não ter muitos engenheiros, mas os poucos que tem ocupam cargos altos na empresa de construção, já que fazem parte do "core business" e são como laje ou um andaime. Todavia também tem advogados para tratarem dos Contratos e de muitos vendedores, pois a concorrência é brava, e com essa crise.....temos que vender...o que está cada vez mais difícil. O problema é que muitas vezes o chefe dos vendedores pensa que é  advogado  e quando pode, tentam interpretar a lei e os procedimentos internos ao seu bel prazer, digo, a maneira que melhor lhes convém, ou convém aos amigos mais próximos.

 

Quanto mais conversava com o Ubaldo, naquela época, mais me questionava sobre ter tantos procedimentos internos naquela empresa, dado que sendo ela familiar deveria ter um Ethos bem desenvolvido e julguei que todo mundo sabia como deveria agir em determinada situação, sem ter que ficar recorrendo a consultas em procedimentos recomendados. Deduzi que quando se trabalha com pedras brutas tem que ser assim e é porque elas vêm de muitos lugares diferentes e também são todas muito particulares, ou pelo menos se acham assim.

 

Com tudo isso, reencontrando agora o Ubaldo depois de tanto tempo, vejo-o completamente mudado, que nos deixa por saber agora como vives, com quem andas e o que faz. Indaguei-o e ele me respondeu que vive de dar Presentes e como não entendi direito a resposta, ele disse que é a maneira que encontrou de ser feliz, já que dar Presentes quase sempre deixa mais feliz comete este Ato. Explicou-me que somente se é feliz no tempo presente, não no tempo que já passou o no tempo que talvez venha a ser. Pois é, o Ubaldo ta diferente e parece que agora é realmente utópico, não?

 

Não sei por que ainda conserva alguma coisa que carrega em uma pequena mochila. Perguntei e ele o que levava e me respondeu afirmando que são pedras e ai lhe disse:

 

 - Ainda não perdeu o habito enraizado de construir a partir das pedras?

 

Como resposta ele não foi claro, retrucou que eram algumas pedras especiais, diferentes, por isso as tinha acolhido em sua mochila, mas que logo mais falaria sobre pedras. As quais servem para muitas coisas, desde construir muros até pavimentar escadas.

 

Não pensei em perguntar outra coisa sobre pedras, mas sim sobre que tipo de Presente dava às pessoas e que recebia em troca.

 

Ubaldo confessou que no tempo que lia tudo pela frente acabou conhecendo algumas pessoas, as quais lhe ensinaram um pouco sobre sentir, já que ele inicialmente estudava muito sobre pensar e fazer. Disse que aprendeu a ler um pouco "entre as linhas" e disse descobrir em alguns textos um significado mais amplo do que inicialmente pareciam ser. Por exemplo, aquela história sobre os três filhos de Noé - Can, Sem e Jafé - disse ele que o significar pode ser muito mais amplo. Como um representar o Pensar, outro o Fazer e outro o Sentir. Logo, não adianta dizer que se é Administrador quem não sabe que os três irmãos sempre andam juntos. Retruquei, dizendo que para mim representavam as três grandes religiões ou povos que receberam a Palavra - Os Semitas (Árabes e Judeus), os Cananitas (Egípcios) e os Jafetitas (Hindus).

 

Ubaldo parou e pensou ao responder, dizendo que pode ser também representarem as três raças primordiais, do ponto de vista simbólico, que primeiro habitaram este Planeta, mas que para ele o importante era refletir sobre isso e principalmente conversarmos sobre isso. Para ele a Verdade estava na descoberta e na troca de pensamentos, sentimentos e ações, aplicando de maneira prática este saber simbólico. Fato é que mais intrigado ainda fico e passo até desconfiar do Ubaldo. Será mesmo que ele perdeu a memória ou será que converso com outro, o qual pode mesmo não ser a mesma pessoa?

 

Quis saber mais, já que nos passou pela mente este não ser o Ubaldo que conheci, talvez seja outra pessoa qualquer sem memória. Indaguei sobre o que levou a pesquisar sobre o significado simbólico das coisas e daí navegar ao mito de Noé e seus filhos.

 

Ubaldo, que lia muito, falou de uma constante preocupação em saber a Origem:

  

- Assim fica mais fácil traçar o caminho de volta, disse ele.

 

Afirmou que tudo leva de volta à Origem, mas que cada caminho de retorno é muito particular, o que não invalida a tese de procurar as origens. Pelo contrário.

 

Disse-me que cada caminho temos que fazê-lo com as próprias mãos e construir o nosso retorno como se faz uma ladeira, sendo que nesta ladeira é comum se perder a memória de algumas coisas e recuperar a memória de outras. Em São Paulo tem até a Ladeira da Memória, na qual muita gente sobe e desce todo dia sem saber que a Vida é um trocar de memórias, a tal ponto que muitos chegam a não lembrar quem realmente são, de onde vem e para onde vão. Vão subindo a ladeira até certo ponto, para descer e tornar subir novamente, por várias vidas. Não obstante numa vida, quando acham que chegaram mais alto, logo já se auto-intitulam Mestres, quando a altura nos mostra que enquanto existir distância, mais tempo vai existir para se purificar como aprendizes.

 

Ubaldo comparou esta ladeira como um caminho que foi escalado por Jacó. Ansioso, fui logo falando:

 

- Seria a famosa "Escada de Jacó"?

 

Ubaldo ficou evidentemente contrariado em seu olhar para mim. Acho que não gosta de ter sua retórica interrompida. Compreendi, pois já sabia que a maioria dos construtores são assim mesmo, retóricas longas, mas poucas dialéticas e gramáticas cifradas. Talvez Can seja mais dialético, por isso foi rejeitado por alguns grupos e acabou sumindo, ao passo que Sem e Jafé sabiam lidar melhor com o desejado da gramática e da retórica.

 

Ubaldo então me passou algo escrito que talvez nos dê uma pista que ajude a ajudá-lo:

 

"Jacob's Ladder"

 

Prefiro ser,

Só Ser.

 

Prefiro ser Presente,

Do que ser passado.

Ignorado,

Prefiro Ser.

 

Dizer que,

Ao fim de mais um período

Sempre é tempo de reflexão,

Para com os que se vão.

 

Senão,

Tempo de avaliação,

Tempo de fim e recomeço.

Tempo de Ação.

 

Mas para mim,

Tenho que viver este Presente contínuo.

Começando e terminando tudo ao fim de um só dia, 

Passarinhando e parodiando o Mário Quintana:

 

- "Eles passarão, eu passarinho".

 

Prefiro Ser

Essência sem contexto,

Ao invés de ser

Texto sem essência.

 

Prefiro ser Mar Oceano*,

Prefiro ser Esta Metamorfose Ambulante**,

Prefiro ser como alguns dizem que talvez fôra Fernando Pessoa***

Ao construir Castelos com as pedras do caminho.....

 

Caminho

Que caminho

Sózinho,

Com o Mundo.

 

Referências:

 

*http://poetamarioquintana.blogspot.com.br/2009/01/mario-quintana-obsessao-do-mar-oceano.html

 

**http://letras.terra.com.br/raul-seixas/48317/

 

***http://www.nowpublic.com/tag/Brazil

 

*** http://tangerinadoce.blogspot.com/2005/12/fernando-pessoa.html